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19 de dezembro de 2008

Leituras

Dado o cenário em que me debato - o adiantado das datas, a praticamente inexistente fluidez financeira e a minha falta de vontade e força para continuar a estrebuchar na lama rodando em falso - durante as insónias que me assolaram na noite de terça-feira, noite de chuva e enxames de mosquitos, decidi tomar a medida extrema: desligar a ficha.
Não haverá Natal, Ano Novo, e muito menos prendas. »»»
Savana - 19 Dezembro/2008

5 de dezembro de 2008

Leituras

A primeira vez que li "À Espera de Godot ", de Samuel Becket, tinha 17 anos. Pela aparente desconexão do enredo (?) fiquei sem saber se, quem estava louco era eu ou o autor da peça. Por via das dúvidas, e como naquela altura - anos 70 - frequentava a tribo dos alucinogénicos, de preferencia mesmo o LSD, decidi pensar que eu é que estava destravado, incapaz de compreender o profundo alcance da obra, ademais de um homem celebrado mundialmente na torre de marfim das letras e dei o caso por encerrado: o que não tem remédio remediado está.
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Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 5 Dezembro/2008

29 de novembro de 2008

O ex libris da cidade de Maputo é a acácia. A minha arvore preferida é a mafurreira. Na casa onde nasci, cresci e me fiz homem há duas mafurreiras: uma da parte do meu pai, dos pais dele e da mãe, outra da nossa parte, nós os Pindula.
O meu pai morreu há 33 anos quando, no dia 24 de junho de 1975, muito ingenuamente, lhe anunciei, chegado de fresco da cidade de Lourenço Marques, com a minha farda de furriel miliciano: “PAI, amanhã vamos ficar independentes".»»»
Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 28 Novembro/2008

22 de novembro de 2008

Leituras

Sou irredutivelmente avesso à crença segundo a qual existem destinos pré-datados e, muito menos, pessoas predestinadas: seja nas artes, nos amores, no desporto, nas ciências, política, boémia.
Explico tudo pelo trabalho árduo e perseverante, embora conceda um espaço ao favor da benção do talento.
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Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 21 Novembro/2008

13 de novembro de 2008

Leituras

O meu pai tinha-me destinado para futebolista. E, de facto, até aos doze anos, ele teve motivos de sobra para acreditar que eu satisfaria o seu sonho.
No futebol de bairro e, tempos depois, aos onze anos, quando tentei uma curta e descrente carreira como iniciado no federado, dei mostras de, como ele gostava de dizer aos amigos nas tertúlias de vinho tinto com chouriço e ovos "ter garra".
Foi sol de pouca dura: a tal de garra, se é de facto que cheguei a tê-la, cedo se desgastou e deu lugar a outras apetências, outros apelos mais terrenos pelo que tinham que ver com a carne.
Junto com outros quatro da minha laia, dei de formar um grupo musical que aos fins de semana tocava musica brasileira ou sungura em bailes de terceira nos botecos dos subúrbios de Lourenço Marques a troco de um montinho de moedas ou cinco litros de tinto com atum e ervilhas, tardes dançantes por nossa conta no botequim Twist com aparelhagem alugada no Cebolo ou festas de aniversário e casamento de algum familiar mais liberal e tolerante pois, a dizer a verdade, nunca ultrapassamos a faixa da mediocridade!
O meu pai cortou-me a mesada: "não vou pagar estudos a um vadio. Se queres continuar a estudar fá-lo por tua conta. De resto já es um homenzinho".
Passei a levar uma vida de boémio adulto e assumido: nunca estava fora da cama antes das 11H00, alimentava-me frugalmente onde e quando calhasse, consumia thc, nadava em hectolitros de vinho e frequentava a Rua Araújo pela madrugada, depois dos ensaios com o meu grupo ou de passar por um palco com pagamento feito imediatamente após o show.
O meu pai começou a minguar.
Deu-lhe de passar todas as horas livres nos reservados que funcionavam nas traseiras da cantina do Simões, com elas e vinho verde, permanentemente em estado de semi-inconsciência.
A minha mãe nunca me perdoou o estado a que conduzi o seu marido e desejou-me todos os males que se podem desejar a um Homem.
O seu desejo cumpriu-se: Mas sempre que me vê não resiste à tentação de chorar o meu destino: o seu filho único tornou-se um farrapo.

Savana - 13 Novembro/2008

8 de novembro de 2008

Leituras

Sou neto de Mwene Thuzine: Embora ele tenha morrido há mais de 40 anos, o seu espectro continua a pairar sobre o imaginário das gentes - novas ou velhas - de Nova Mambone, que reverenciam as suas qualidades quase sobrenaturais de curandeiro e até mesmo feiticeiro, provadas ao longo de uma prática sem desfalecimentos desde a juventude até à sua morte, aos 107 anos.
Savana - 7 Novembro/2008

2 de novembro de 2008

Leituras

Aos 27 anos de idade, menina e moça, a Thelma Nakathembo deixou-me viuvo, vitima de cancro nos ovários.
Viuvo e pai de duas crianças adoráveis, um casal: a Clementina Nakathembo Mboa e o Bruno Nakathembo Mboa Jr.
Ela tem agora 27 anos.
Fez curso de culinária no Hotel Andaluzia e trabalha como cozinheira para um casal de espanhóis na Rua de Kassuende, ao pé das "oficinas" da otorrinolaringologia do HCM.
Ver texto completo.
Savana - 31 Outubro/2008

24 de outubro de 2008

Leituras (21)

Uma peneira chamada Carlota
"Quem te fez isso?", perguntei-lhe, sem querer, nem por sombras, ofendê-la. Estava simplesmente acabrunhado pela sua gravidez aos dezassete anos, criança prestes a ter outra criança como filh(a)o, escola esquecida, emprego remoto nesta selva, condenada talvez a ser empregada doméstica, ou dealer de sexo na rua Araújo, a pôr uma criatura ao mundo de 18 em 18 meses, sem o mínimo de possibilidades de lhe garantir um lugar para o famélico par de nádegas no banco de uma escola.
"Quem te fez isso, Carlota?"
(...)
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Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana – 10 Outubro/2008

1 de outubro de 2008

Leituras (17)

Mulheres, eu e a cobardia
Gosto muito de mulheres vestidas de branco, com dentes brancos, uma grinalda branca, sapatos de cetim; soutien, peúgas e lenço de seda.
Ou veludo preto, véu, um ramalhete de rosas vermelhas na mão, uma lágrima mal contida, um pretendente há muito querido, a genuflexão dorida na campa do defunto, o olhar interrogativo para os filhos, os netos, as noras, os genros e tudo é passado: Illah te dê Janath!
Isto tem sentido?
Tem.
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Fernando Manuel – Tanglomanglo
Savana – 26 Setembro/2008

19 de setembro de 2008

Leituras (14)

A loucura que existe nos génios
Ele chegou ao sitio por volta das 10 da noite, num estado de sobreexcitação fora do vulgar, Vinha, literalmente, a ferver. E, como é mulato, isso notava-se-lhe perfeitamente no rubor das sues faces de trintão bonito, mas precocemente utilizado por uma vida de boémia sem regra, na ponta do nariz, no falar entrecortado.
Pedi um uísque para ele: era a minha vez no xitique. "Duplo, nhâ senhora, com mui de gelo", acrescentou ele com um gesto largo, patético. Virou-se depois para mim, pousou os braços com as mãos espalmadas no tempo do mesa de plástico, verde, e fitou-me com aqueles seus olhos de íris verde, alucinado.
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Fernando Manuel - Missa pagã
Savana - 23 Setembro/2005

Leituras (13)

O aftar da Zuleika
"Gostaria muito, Kamanguira. Mas não posso". E ela olhou para mim do fundo dos seus olhos de castanho molhado, nos lábios uma insinuação de sorriso. como quem pede, com os olhos, os lábios e o silêncio, uma desculpa que as palavras nunca poderiam dizer:
"Não posso, Kamanguira. Bem gostaria...
Suspirei fundo:
"Mesmo depois do aftar, Zuleika?"
"Sim, mesmo depois do aftar."
Eram quatro da tarde, segunda feira, 08SET08: "Kamanguira, compreenda-me: no fundo, só nos conhecemos há uma semana. Sou uma pecadora.
Se fosse na vossa religião, eu seria a Maria Madalena. A Maria Madalena não foi a mulher que se transformou na esposa de Jesus, foi fiel e lhe deu filhos?"

Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 12 Setembro/2008

31 de agosto de 2008

Leituras (9)

O meu xará
Bem que ele se esforça por demonstrar que somos amigos. Bem; também, que gostaria de lhe retribuir esse desejo. Mas, francamente falando, não consigo, embora nunca lho tenha dito: gosto muito dele, da sua franqueza de campónio esperto, mas daí a considerar-me seu amigo vai um abismo.

Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 29 Agosto/2008

30 de agosto de 2008

Leituras (8)

Os sete magníficos e os novos infiltrados
Nas hostes do partido no poder – a “Família” (como lhe chama, e muito acertadamente, Sérgio Vieira) -, nessa Família andam provavelmente com um sorriso bem aberto, de orelha a orelha, devido á explicação mágica que as “correntes de opinião” engendraram sobre o banimento de Eneas Comiche do município de Maputo.
Afonso dos Santos – Lide lídima
Savana – 29 Agosto/2008

Leituras (7)

Basta
(...) Da primeira vez que aquele partido teve um dirigente honesto e competente, aceite e aplaudido mesmo por aqueles que não são membros nem simpatizantes da Frelimo, na primeira oportunidade deram-lhe o pontapé no rabo. Desculpem a expressão mas foi exactamente isso que lhe fizeram, seja qual for a forma como queiram agora apresentar o que aconteceu.
Ver texto completo.

Machado da Graça – A Talhe de Foice
Savana – 29 Agosto/2008

27 de agosto de 2008

Leituras (6)

Faustino, o destinado
Ela estava deitada de costas, grávida de 3 meses. Ele estava acabadinho de chegar, 18 meses sofridos nas minas do rand.
Ele a perguntar "quem 'te engravidou, Carlota, quem te engravidou", ela "não sei", ele "diga, não tenha medo, não vou mata-lo", ela acabou confessando: "Foi o vizinho do quarto andar, o Faustino, teu amigo".
Ele disse: "Muito bem".

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Fernando Manuel - Missa pagã
Savana – 5 Agosto/2007

26 de agosto de 2008

Leituras (5)

Zen
O meu Rolex de parede, na sala, deu doze badaladas.
Virei-me de costas, destapei-me e fiquei; 67 anos depois, tal como a minha mãe me pôs neste mundo; durmo sem pijama, por falta de hábito. Também, de resto, nunca tive dinheiro para gastar com essa estupidez. Porque, sejamos francos, dormir de pijama num país cuja temperatura media é de 30 graus e a humidade roça a escala máxima do barómetro, se não é estupidez roça a pura imbecilidade.
Durmo nu, por conseguinte.
Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 22 Agosto/2008

Leituras (4)

Clepsidra
Em Maio / Junho íamos pelos campos onde, fascinados, admirávamos os voos errantes, ilógicos, uns arabescos traçados ao sabor do acaso no seio do ar por pares de borboletas que entretanto se amavam.
Fazer amor em voo, tendo o ar como leito.
E logo depois íamos surpreender esses mesmos casais de borboletas, já apartados, a chuchar o néctar de uma madressilva, a sujar as asas com o pólen que depois era semeado noutras paragens.
Nós, então, íamos colher flores silvestres: de todos os nomes, de todas as cores; de todas as raças: amarelas; verdes; azuis, pretas (?) vermelhas, lilás...
Fernando Manuel - Tanglomanglo
Savana - 1 Agosto/2008

24 de agosto de 2008

Leituras (3)

Eu, o Ngungu e as profecias abortais
Ela chamava-se, de seu nome completo, Tereza Agripina Langa.
Tinha 17 anos e frequentava a nona classe do secundário em Macupulane, distrito de Mandjakazi, Gaza - aquilo a que a administração portuguesa designava por Circunscrição dos Muchopes: memórias de feridas mal saradas das guerras que o sanguinário Ngungunhana moveu contra os chopes, os bitongas por causa de um prosaico frasco de azeite extraído da semente de mafurra - munyantsy - e mulheres ao baldio.
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Fernando Manuel - Missa pagã
Savana - 16 Setembro/2005

Leituras (2)

Ondina
Como é frequente acontecer em pessoas introvertidas, naquela manhã soalheira de Setembro, meados, estava sozinho a viajar sentado na esplanada do Bar Sincopado, alheio a tudo, entregue a mim próprio e aos meus sonhos, o corpo ancorado numa taça de conhaque Curvoisier, na grande sala, atras de mim, a poesia do Eugénio Mucavel a cantar para a Magilidana no leitor de cds da casa.
Ausente.
Fernando Manuel - Missa pagã
Savana - 10 Agosto/2007

Leituras (1)

África é o que é hoje por culpa própria. África esta mais pobre do que nunca devido à sua própria pequenez. A pequenez da sua visão. Uma visão míope que não consegue ver u ma jibóia de barriga cheia em pleno deserto de areia plana e calma. Uma visão que impossivelmente consegue imaginar uma África grandiosa para todos. Uma visão cega que tem no umbigo do, dono dos olhos míopes, o centro e o destino primeiro, único e último desta visão.
Ver texto completo.

Mini Macatai Mathendja
Domingo – 24 Agosto/2008